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Ortorexia no Trail: a armadilha da alimentação perfeita

Por Sofia — traduzido de um artigo de Charly Caubaut Publicado em 04/08/2026 às 08h37   Tempo de leitura : 11 minutes
Ortorexia no Trail: a armadilha da alimentação perfeita
Crédito da imagem: AthleteSide

Ortorexia no Trail: A Perigosa Armadilha da Alimentação Perfeita

Olá a ti, apaixonado por trilhos e desníveis! Sou o Charly e, tal como tu, passei horas, dias, anos a gastar as minhas sapatilhas nos caminhos. Para mim, o trail é muito mais do que um desporto. É um regresso ao essencial, um diálogo com a natureza e consigo mesmo. É aquela sensação incrível de só precisar das pernas, da respiração e da beleza da paisagem. Simples, não é? No entanto, na nossa busca por desempenho, por vezes tendemos a complicar as coisas. E uma das áreas onde as coisas podem realmente descarrilar é a alimentação.

Estamos de acordo, comer bem é crucial. É o combustível que nos permite engolir os quilómetros, recuperar e manter a forma. Eu próprio passei anos a otimizar as minhas ingestões, a testar estratégias de nutrição em corrida, a procurar os alimentos que me davam aquele impulso extra. Mas existe uma linha ténue, quase invisível, entre uma alimentação saudável e uma obsessão doentia. Uma linha que vi muitos atletas, amadores e experientes, atravessar sem se aperceberem. Essa obsessão tem um nome: ortorexia.

Não é um tema fácil, admito. Toca no íntimo, na nossa relação com o corpo, com o desempenho. Mas é precisamente por ser um tema tabu que é preciso falar sobre ele. Porque por trás da fachada do corredor de trail ultradisciplinado que só come alimentos "puros", há muitas vezes sofrimento, ansiedade e, paradoxalmente, uma quebra de desempenho. Imaginei este artigo como uma conversa entre nós, uma conversa franca e benevolente para te ajudar a compreender esta armadilha, a reconhecer os sinais em ti ou num ente querido e, acima de tudo, a encontrar chaves para que a alimentação continue a ser o que deve ser: uma aliada do teu prazer e da tua progressão nos trilhos.

Distinguir a alimentação saudável da obsessão: O que é, afinal, a ortorexia?

Talvez estejas a pensar: "Espera, Charly, eu só gosto de comer de forma saudável. Tenho cuidado com os produtos processados, dou preferência ao biológico, leio os rótulos... Serei ortoréxico?" A pergunta é legítima, e a resposta é provavelmente não. A diferença fundamental não reside no *conteúdo* do teu prato, mas na *carga mental* e na ansiedade que o rodeiam.

Definição: quando o "comer bem" se torna uma prisão

O termo "ortorexia nervosa" foi cunhado em 1997 pelo Dr. Steven Bratman. Ele construiu-o a partir do grego: "orthos" (correto) e "orexis" (apetite). Literalmente, o apetite pelo que é correto. No papel, parece positivo. Quem não gostaria de comer corretamente? O problema é que esta busca pela "pureza" alimentar torna-se uma obsessão rígida e punitiva.

A ortorexia ainda não é oficialmente reconhecida como um distúrbio alimentar distinto em todos os manuais de diagnóstico, mas a comunidade médica e psicológica concorda com as suas características:

  • Uma fixação na qualidade e pureza dos alimentos: A pessoa não se preocupa tanto com as calorias, mas sim com a origem do alimento (biológico, sem pesticidas), a sua composição (sem glúten, sem lactose, sem açúcar adicionado...) ou o seu modo de preparação (cru, a vapor...).
  • Regras alimentares autoimpostas e cada vez mais restritivas: O que começa com a eliminação do açúcar refinado pode evoluir para a eliminação de todos os hidratos de carbono, depois dos laticínios, depois da carne... A lista de alimentos "permitidos" encolhe drasticamente.
  • Um sofrimento psicológico intenso: A transgressão de uma regra alimentar provoca culpa e ansiedade extremas, muitas vezes seguidas por uma fase de "purificação" ainda mais rigorosa.

Em suma, a pessoa que se preocupa com a sua saúde escolhe comer uma salada porque lhe faz bem e é saborosa. A pessoa ortoréxica come essa salada porque tem um medo pânico de comer outra coisa e sente-se virtuosa e superior ao fazê-lo.

O campo de jogo favorito da ortorexia: o mundo do trail

Porque é que nós, corredores de trail, somos particularmente vulneráveis? Porque o nosso desporto, pela sua própria natureza, preenche todos os requisitos propícios a este tipo de desvio.

  1. A cultura da otimização: No trail, cada detalhe conta. O peso da mochila, a escolha das sapatilhas, a estratégia de corrida... E, claro, a alimentação. Somos bombardeados com artigos sobre o mais recente superalimento, a bebida de esforço perfeita, a dieta cetogénica para ultra... É fácil acreditar que existe uma dieta "mágica" que nos fará ganhar os poucos minutos que nos faltam.
  2. A necessidade de controlo: Na montanha, não controlamos grande coisa. O tempo, uma pedra que rola, uma quebra de forma... É isso que faz a beleza e a dificuldade da nossa modalidade. Para personalidades perfecionistas e disciplinadas (soa-te familiar?), a alimentação pode tornar-se a única coisa sobre a qual temos controlo total. É um refúgio, uma forma de acalmar a ansiedade perante a incerteza.
  3. A resistência e o ascetismo: O nosso desporto valoriza a disciplina, a capacidade de suportar, de superar os limites. Privar-se de certos alimentos pode ser visto, erradamente, como uma forma de força mental, uma disciplina adicional que nos torna mais "fortes" do que os outros.

Isto não é um julgamento, é uma constatação. As qualidades que nos tornam bons atletas de resistência são também as que nos podem fazer vacilar se não tivermos cuidado.

A confusão com a anorexia ou a bulimia

Esta é uma distinção crucial. Na anorexia, a obsessão principal é a perda de peso e o medo de engordar. O objetivo é quantitativo: comer o mínimo de calorias possível. Na ortorexia, a obsessão é qualitativa: a pureza da comida. Uma pessoa ortoréxica pode consumir um número suficiente de calorias, mas apenas de fontes que considera "aceitáveis". Claro que as duas podem sobrepor-se: uma restrição qualitativa extrema leva muitas vezes a uma restrição quantitativa e à perda de peso. Mas a motivação inicial é diferente. O corredor de trail ortoréxico não quer necessariamente ser mais magro, quer ser mais "puro", mais "saudável", com melhor desempenho. É isto que torna o diagnóstico e a consciencialização tão difíceis.

Os sinais de alerta da ortorexia no trail: quando a bússola interna perde o norte

Identificar o deslize é o primeiro passo, e o mais difícil. Porque tudo começa com boas intenções. Aqui estão alguns sinais, pequenos marcos no caminho da tua vida, que te devem levar a abrandar e a verificar se ainda estás no caminho certo.

A mente em sobrecarga: quando o prato ocupa todo o espaço

Pensa na tua carga mental diária. O trabalho, a família, os treinos para encaixar... Já é muito. Agora, pergunta-te que lugar ocupa a alimentação nos teus pensamentos.

  • Planeamento obsessivo: Passas mais tempo a planear as tuas refeições da semana do que a planear as tuas saídas de trail? A ideia de uma refeição imprevista num restaurante gera-te um stress intenso?
  • Ansiedade alimentar: Sentes ansiedade ao fazer compras, ao ler cada rótulo, a questionar se este ou aquele produto é "suficientemente saudável"?
  • O julgamento moral dos alimentos: Classificaste os alimentos em duas categorias: os "bons" (que te deixam orgulhoso) e os "maus" (que te fazem sentir culpado e fraco)? Um alimento é apenas um alimento. Atribuir-lhe um valor moral é um sinal de desvio.

Lembro-me de um colega de equipa que se recusava a ir aos jantares de pós-corrida. No início, pensávamos que ele estava apenas com pressa. Na realidade, ele ficava angustiado com a ideia de não poder controlar a 100% o que estaria no seu prato. O prazer de partilhar um momento de convívio tinha sido totalmente ofuscado pelo medo da comida.

Os rituais e as regras: uma prisão dourada

Disciplina é bom. Rigidez é uma jaula. Os rituais podem ser reconfortantes, mas quando se tornam inflexíveis, são um problema.

  • Exclusão de grupos alimentares inteiros: Baniste o glúten, os laticínios, o açúcar, as leguminosas ou outras categorias de alimentos sem um diagnóstico médico (alergia, intolerância)? A autoprescrição de dietas restritivas é um sintoma principal.
  • Regras de preparação rigorosas: Comer apenas alimentos crus, cozidos a vapor, ou preparados por ti com utensílios específicos.
  • Medo pânico da "contaminação": A simples ideia de que o teu prato esteve em contacto com um ingrediente "impuro" (um pouco de óleo não biológico, açúcar...) torna-o intragável para ti.

Estas regras, no início, dão uma sensação de controlo e segurança. Mas, pouco a pouco, ditam a tua vida e impedem-te de viver normalmente. O mais pequeno imprevisto torna-se uma fonte de pânico.

O isolamento social: o corredor de trail torna-se um lobo solitário

O trail é um desporto individual, mas tem uma alma profundamente coletiva. As saídas em grupo, as corridas, os pós-corridas... É o nosso tecido social. A ortorexia vem dinamitar tudo isso.

Começas a recusar convites para restaurantes, jantares em casa de amigos, churrascos do clube. Porquê? Porque não vais conseguir controlar o menu. Preferes comer sozinho, em casa, os teus alimentos "seguros". O teu mundo social encolhe. A tua paixão, que devia ser uma fonte de ligação, torna-se uma causa de isolamento. É um dos sinais mais tristes e reveladores.

O paradoxo final: o impacto negativo no desempenho

É aqui que a armadilha é mais cruel. Fazes tudo isto para ser um melhor corredor de trail. Privas-te, disciplinas-te, procuras a perfeição nutricional. E o resultado? Estagnas, ou até regrides.

  • Falta de energia crónica: Ao suprimir grupos alimentares inteiros, nomeadamente os hidratos de carbono e as gorduras, privas o teu corpo do seu principal combustível. As sensações de pernas pesadas, as quebras de energia, a incapacidade de "impor ritmo" tornam-se o teu quotidiano.
  • Carências nutricionais: Mesmo comendo alimentos "saudáveis", uma dieta demasiado restritiva leva a carências de vitaminas, minerais (ferro, cálcio...), oligoelementos... Resultado: fadiga, anemia, sistema imunitário enfraquecido.
  • Risco acrescido de lesões: Um corpo mal nutrido é um corpo frágil. Fraturas de stress, tendinites, problemas hormonais (amenorreia nas mulheres)... É o famoso síndrome RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport), onde o défice energético tem consequências em cascata em toda a tua saúde.
  • Perda de prazer: Correr torna-se uma tarefa árdua. Cada saída é uma análise das tuas sensações, do teu nível de energia, que ligas diretamente à tua refeição do dia anterior. O simples prazer de te moveres na natureza desaparece, substituído por uma análise ansiosa do desempenho.

Nas raízes da armadilha: porque é que a paixão descarrila

Compreender os mecanismos que nos levam a este comportamento é essencial para nos podermos livrar dele. Não é uma questão de vontade ou de fraqueza, mas sim um cocktail complexo de fatores pessoais, desportivos e sociais.

A busca dos "ganhos marginais" levada ao extremo

No desporto de alto nível, fala-se frequentemente dos "ganhos marginais", aqueles pequenos 1% de melhoria que se podem encontrar em todo o lado: material, sono, nutrição... Esta cultura infiltrou-se até ao nível amador. Somos bombardeados com informações que nos prometem que tal dieta ou tal suplemento vai revolucionar o nosso desempenho. Acabamos por acreditar que existe uma fórmula mágica e que, se não a aplicarmos à risca, estamos a perder o nosso potencial. A alimentação torna-se então menos um apoio do que uma equação a resolver, e o mais pequeno erro é visto como um fracasso. Esquecemo-nos do básico: o desempenho constrói-se ao longo de anos de treino regular e uma alimentação globalmente equilibrada, não na exclusão da sobremesa de domingo.

O controlo como boia de salvação

Já o mencionei, mas este ponto é central. A vida de um atleta está cheia de incertezas. A lesão, a má forma, a concorrência, o tempo no dia D... Para personalidades que gostam de dominar as coisas, é ansiogénico. A alimentação torna-se então uma área onde o controlo é total. És tu, e só tu, que decides o que entra no teu corpo. Este ato de controlo pode ser extremamente reconfortante. É uma forma de dizer a si mesmo: "Talvez não consiga controlar o meu VO2máx ou o tempo, mas posso controlar o meu prato a 100%". O problema é que esta necessidade de controlo acaba por te controlar a ti.

A era da informação (e da desinformação): as redes sociais

Ah, o Instagram... Uma fonte de inspiração incrível, mas também um verdadeiro veneno. Vemos atletas (ou influenciadores que se dizem atletas) a partilhar corpos perfeitos e pratos perfeitos. Os "What I Eat in a Day" que só mostram saladas de couve kale e batidos verdes. Discursos que diabolizam alimentos e elevam outros ao estatuto de milagres. Inevitavelmente, comparamo-nos. Dizemos a nós mesmos: "Se ele, com aquele físico, só come isto, eu devia fazer o mesmo". Esquecemo-nos que estas publicações são uma montra, uma versão idealizada da realidade. Ninguém publica a foto da pizza de sábado à noite ou do pacote de bolachas devorado depois de um dia difícil. Esta pressão social e visual leva-nos a adotar comportamentos alimentares irrealistas e perigosos.

O perfil do "bom cliente": perfecionismo e disciplina

Sejamos honestos, para correr durante horas na montanha, é preciso uma boa dose de disciplina, rigor e, muitas vezes, perfecionismo. Gostamos das coisas bem feitas, dos planos de treino seguidos à risca, do material bem preparado. São qualidades! Mas estes mesmos traços de carácter, quando aplicados de forma rígida à alimentação, podem fazer-nos vacilar. O desejo de "fazer bem" transforma-se no medo de "fazer mal". A disciplina torna-se rigidez. A busca pela excelência transforma-se numa busca por uma perfeição inatingível e ansiogénica.

Os danos colaterais de um prato "perfeito"

As consequências da ortorexia vão muito além de uma simples relação complicada com a comida. É um verdadeiro tsunami que pode afetar todas as esferas da tua vida.

Físicos: um corpo que grita por ajuda

O corpo humano é uma fantástica máquina de adaptação, mas precisa de diversidade para funcionar. Ao focares-te na "qualidade" percebida, arriscas-te a criar desequilíbrios muito mais graves do que os que tentas evitar.

  • Desnutrição paradoxal: Podes comer alimentos muito caros, biológicos, e ainda assim estar desnutrido. A exclusão de gorduras pode afetar a absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) e a produção de hormonas. A exclusão de hidratos de carbono esgota as tuas reservas de glicogénio, essenciais para o esforço. A exclusão de laticínios sem compensação pode levar a um défice de cálcio...
  • Distúrbios hormonais: Nas mulheres, a baixa ingestão de energia pode levar à amenorreia (desaparecimento da menstruação), o que aumenta consideravelmente o risco de osteoporose e fraturas de stress. Nos homens, pode fazer baixar os níveis de testosterona, com impacto na energia, na libido e na massa muscular.
  • Problemas digestivos: Uma dieta demasiado rica em fibras e demasiado restritiva pode, paradoxalmente, causar inchaço, dores e problemas de trânsito intestinal. O sistema digestivo precisa de equilíbrio, não de um extremo.

Psicológicos: quando a cabeça já não acompanha

É muitas vezes aqui que os danos são mais profundos. A obsessão alimentar é mentalmente esgotante.

  • Ansiedade generalizada: A ansiedade já não se limita às horas das refeições. Infiltra-se em todo o lado, em cada decisão, em cada interação social.
  • Alterações de humor e irritabilidade: A falta de hidratos de carbono, o combustível do cérebro, pode tornar-te irritável e emocionalmente instável. As carências, nomeadamente de ferro e vitaminas do complexo B, também podem afetar o humor.
  • Depressão: O ciclo de restrição, culpa, isolamento e perda de prazer é um terreno fértil para a depressão. A tua paixão, que era uma fonte de alegria e um antidepressivo natural, torna-se uma fonte de stress. É um círculo vicioso devastador.

É crucial compreender a profunda ligação que existe entre o que comemos e o nosso estado mental. Uma alimentação rígida e ansiogénica é inimiga do bem-estar psicológico. É um tema complexo que abordei com mais detalhe no meu guia sobre a Alimentação e saúde mental em triatletas e corredores de trail, uma leitura que te aconselho se sentes que este assunto te diz respeito.

Sociais: a corrida a solo

Comer é um ato social. Partilhar uma refeição é partilhar uma cultura, uma história, um momento. A ortorexia exclui-te de tudo isso. As tuas relações com os amigos, a família, o teu parceiro ou parceira tornam-se tensas. Tornas-te "aquele que come de forma diferente", "aquele que não pode comer nada". Os outros podem sentir-se julgados ou já não saber como te convidar. O isolamento, inicialmente escolhido, torna-se imposto. E um corredor de trail isolado é um corredor de trail em perigo, porque é a comunidade que nos apoia nos momentos difíceis.

Redescobrir o prazer de comer e de correr: o teu plano de ação

Se te reconheceste nas linhas anteriores, sabe antes de mais que não estás sozinho e que não há vergonha nenhuma nisso. A tomada de consciência é o primeiro passo para a cura. Sair desta armadilha é possível. É um caminho, um pouco como uma ultra, com altos e baixos, mas a linha da meta vale todos os esforços: reencontrar a liberdade e o prazer.

Passo 1: Aceitar sem julgar

A primeira coisa a fazer é parar de te autoflagelares. Quiseste fazer o bem. As tuas intenções eram boas. Reconhecer que esta busca pela perfeição te fez mal não é uma admissão de fraqueza, mas uma prova de força e lucidez. Aceita a ideia de que o caminho que tomaste já não é o certo e sê benevolente contigo mesmo.

Passo 2: Abdicar da perfeição (a regra 80/20)

A perfeição não existe, nem no treino, nem na vida, e muito menos na alimentação. Proponho-te uma das minhas "dicas práticas" favoritas: a regra 80/20. Aponta para uma alimentação saudável, equilibrada, rica em alimentos não processados e nutritivos 80% do tempo. E os restantes 20%? Descomplica. Come aquela pizza com os teus amigos, pede aquela sobremesa que te pisca o olho, bebe aquela cerveja de recuperação depois da corrida. Estes 20% não vão arruinar o teu desempenho. Pelo contrário, vão nutrir o teu moral, as tuas relações sociais e a tua capacidade de aguentar a longo prazo. A flexibilidade é a chave para a sustentabilidade.

Passo 3: Reconectar-se com o corpo

A ortorexia ensinou-te a comer com a cabeça, a seguir regras. Está na hora de reaprender a comer com o corpo. Ouve as tuas sensações:

  • A fome: É uma fome real (roncar do estômago, quebra de energia) ou uma vontade de comer emocional (stress, tédio)?
  • A saciedade: Aprende a parar quando já não tens fome, não quando o prato está vazio ou quando atingiste a tua quota de calorias calculada.
  • O prazer: Que alimento te apetece mesmo, aqui e agora? Permite-te responder a isso (com moderação, claro). O teu corpo é muitas vezes mais inteligente do que pensas e sabe do que precisa.

Passo 4: Redescobrir a diversidade alimentar

Faz uma lista dos alimentos que te proibiste. E se tentasses reintroduzir um, apenas um, esta semana? Vai progressivamente, sem pressão. Escolhe um alimento de que gostavas antes. Talvez um pedaço de queijo, um pouco de pão com a tua sopa, um quadrado de chocolate (que não seja 99%!). O objetivo é desconstruir o medo e reassociar esses alimentos ao prazer em vez da culpa. Varia as cores, as texturas, os sabores. Cozinha por prazer, não apenas pela função.

Passo 5: Fazer uma limpeza digital

O teu feed de notícias nas redes sociais é uma fonte de stress ou de inspiração? Faz uma triagem. Deixa de seguir todas as contas que promovem dietas restritivas, que usam uma linguagem de culpa ("clean eating", "guilt-free"...) ou que te fazem sentir mal contigo mesmo. Segue antes dietistas-nutricionistas do desporto licenciados, chefs que amam a boa comida e atletas que têm uma abordagem equilibrada e descomplicada à alimentação.

A importância da equipa: procurar apoio

Nunca se ganha uma ultra sozinho. Temos uma equipa, pacers, amigos nos postos de abastecimento. Para sair da ortorexia, é a mesma coisa. Não tens de travar esta batalha a solo.

Quando e quem consultar?

Se sentes que a situação te está a ultrapassar, que a ansiedade é demasiado forte, não hesites em procurar ajuda profissional. É o melhor presente que podes dar a ti mesmo.

  • Um médico de clínica geral: Para fazer um check-up completo, verificar carências e encaminhar-te.
  • Um dietista-nutricionista (especializado em desporto, se possível): Ele ajudar-te-á a desconstruir as tuas falsas crenças, a reestruturar a tua alimentação de forma saudável e não ansiogénica, e a adaptá-la às tuas necessidades de atleta.
  • Um psicólogo ou terapeuta: Para trabalhar nas raízes do problema: a ansiedade, o perfecionismo, a necessidade de controlo. É muitas vezes indispensável para uma cura duradoura.

O papel das pessoas à tua volta

Fala sobre isso. Com um amigo de confiança, com o teu parceiro, com um membro da tua família. Escolhe alguém benevolente, que não te julgue. O simples ato de verbalizar o que estás a viver pode ser incrivelmente libertador. Explica-lhes como te podem ajudar: evitando comentários sobre o teu prato, propondo atividades não centradas na comida, ou simplesmente sendo um ouvido atento.

O caminho para uma relação pacífica com a comida é um processo. Haverá dias fáceis e dias mais complicados. O importante é manter a indulgência contigo mesmo e celebrar cada pequena vitória. O teu corpo não é um inimigo a domar ou uma máquina a otimizar. É o teu melhor amigo, o teu parceiro de aventura em todos os trilhos do mundo. Nutre-o com cuidado, mas também com alegria, prazer e liberdade. É o combustível mais poderoso que existe.

Agora é contigo!

Perguntas frequentes sobre a ortorexia no trail

Qual é a diferença entre ter cuidado com a alimentação e a ortorexia?

A diferença principal reside na flexibilidade e na carga mental. Ter cuidado com a alimentação é uma abordagem saudável e flexível, que visa o bem-estar geral. A ortorexia, por outro lado, é uma obsessão rígida em que a qualidade da comida se torna uma fonte de ansiedade extrema, de culpa em caso de desvio e leva ao isolamento social. A intenção inicial é a saúde, mas o resultado é o sofrimento psicológico e físico.

A ortorexia pode realmente prejudicar o meu desempenho no trail?

Absolutamente, e esse é o seu maior paradoxo. Ao procurar a dieta "perfeita", arriscas-te a excluir grupos alimentares essenciais (como hidratos de carbono ou lípidos), o que leva a um défice energético, carências nutricionais, fadiga crónica e um risco acrescido de lesões (fraturas de stress, tendinites). O stress mental gerado também consome uma energia preciosa e diminui o prazer de correr, um motor essencial do desempenho.

Como posso falar com um amigo corredor de trail que suspeito sofrer de ortorexia?

Aborda o assunto com muita benevolência e sem julgamento. Escolhe um momento calmo e privado. Em vez de o acusares, fala das tuas próprias preocupações usando o "eu". Por exemplo: "Estou um pouco preocupado contigo, reparei que pareces stressado com a comida ultimamente. Como te sentes?". Oferece a tua escuta e apoio, e sugere-lhe eventualmente que consulte um profissional de saúde, sem o forçar. O importante é mostrar-lhe que estás lá para ele.

Devo deixar de seguir planos nutricionais para evitar a ortorexia?

Não, necessariamente. Um plano nutricional elaborado por um dietista-nutricionista licenciado pode ser uma excelente ferramenta. O perigo vem das regras rígidas e autoimpostas sem fundamento científico. Um bom plano deve ser personalizado, flexível e educativo. Deveria ensinar-te a ouvir o teu corpo e a fazer escolhas informadas, não a seguir cegamente regras. Se um plano te gera mais stress do que benefícios, está na hora de o reavaliar com um profissional.